O FRACASSO ESCOLAR E SUAS CORRELAÇÕES COM AS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM Professor Ademir Rodrigues Pereira
RESUMO
O principal objetivo deste trabalho é analisar as relações existentes entre o fracasso escolar com as dificuldades de aprendizagem manifestadas na aquisição e utilização da audição, fala, leitura, escrita ou do raciocínio matemático. Para tanto, será necessário primeiramente definir o que são dificuldades de aprendizagem e os motivos que originam o fracasso escolar, de acordo com AQUINO (1997), PAIN (1995), PATTO (1990) e PERRENOUD (2000). Ainda objetiva estudar a correlação entre as atitudes e comportamentos do aluno com os resultados apresentados diante das avaliações, buscando entender as dificuldades de aprendizagem como causa do fracasso escolar. Como conclusão, o estudo aponta para uma ligeira correlação do fracasso escolar com as dificuldades de aprendizagem, evidenciando que tantos outros motivos de ordens sociais e familiares também levam ao fracasso escolar.
Palavras-chave: fracasso escolar, ensino-aprendizagem, família.
Introdução
Conforme os estudos de AQUINO (1997), PAIN (1995), PATTO (1990) e PERRENOUD (2000), pode-se definir o fracasso escolar como sendo o resultado, talvez a complementação de uma dificuldade de aprendizagem. Um, dentre tantos motivos para que o aluno abandone a escola, após se deparar com notas baixas e a impossibilidade de aprovação para a série posterior.
Sabendo-se que a evasão e o abandono escolar têm sido frutos do insucesso, da falta de aprendizagem, o estudo busca entender quais as correlações existentes entre o fracasso escolar com as dificuldades de aprendizagem, que quase sempre respondem como sendo o motivo principal da desistência.
O objetivo da pesquisa é analisar as relações existentes entre o fracasso escolar com as dificuldades de aprendizagem manifestadas na aquisição e utilização da audição, fala, leitura, escrita ou do raciocínio matemático.
A pesquisa se fundamenta no propósito de correlacionar as atitudes e comportamentos do aluno aos resultados apresentados diante das avaliações, buscando entender as dificuldades de aprendizagem, como sendo um motivo aparente do fracasso escolar.

Inúmeras são as pesquisas que visam levantar as causas do fracasso escolar nas séries iniciais do ensino fundamental. Tal preocupação é antiga e, os pesquisadores procuram explicar o insucesso escolar através de características físicas e psicológicas, estudando as condições sociais e os métodos educacionais.
No século XIX buscava-se a explicação para os problemas de aprendizagem nos conhecimentos advindos das ciências biológicas e da medicina, ou seja, procura-se em alguma anormalidade orgânica e justificativa para o fracasso das crianças com dificuldades escolares (PATTO, 1990, p.16)
Segundo AQUINO (1997, p. 91) nas décadas de 60 e 70 na Europa, e na década de 80 no Brasil, o aspecto social e sua relação com o fracasso escolar começa a ser enfatizado pelos pesquisadores. Além disso, surgem os primeiros questionamentos relacionados à patologização, tomadas como gênese das dificuldades escolares. O ponto central de interesse passou a ser o papel da escola, quanto ao efetivo preparo da clientela que a frequenta. Neste sentido, as dificuldades de aprendizagem deixaram de ser pesquisadas como sendo um problema exclusivo do aluno, uma vez que os fatores intraescolares e os de ordem social, econômico e político envolvidos na educação também passaram a ser investigados.
“O fracasso escolar tem origens diversas, com elementos sintomáticos diversificados” (PAIN, 1995, p. 56). Normalmente o resultado final, ou os resultados ao final de cada unidade ou do ano letivo, quando já se percebe a falta de chance alguma para a aprovação caracterizam o fracasso nos estudos daquela etapa.
“Fracassar, no contexto escolar, é ficar à margem dos resultados que promovem a aprovação, que denominam ter alcançado os objetivos propostos dentro do processo de construção do conhecimento” (PAIN, 1995, p. 58). Hoje em dia, muitos são os fatores que levam uma criança ou um adolescente a ter dificuldades de aprendizagem, a não conseguir acompanhar o desenvolvimento de uma aula, a não cumprir metas ou objetivos propostos pelo professor. Normalmente, fracasso escolar é uma via de mão única, pois se refere a um resultado não alcançado. É comum quando um aluno percebe que está com dificuldades de aprendizagem buscar respostas no desinteresse. Tornar-se desatento e agressivo. Conduz, de forma irresponsável o seu material escolar, não faz atividades em sala e, responde prontamente com palavras ásperas e grosseiras a qualquer interpelação pelo professor ou diretor, tentando justificar o seu desvio de conduta.
Segundo PATTO (1990, p. 189) por ser um ambiente social, a escola atua como um ponto de encontro de todas as “tribos”, ou seja, todos os assuntos pertinentes ao mundo global e internetizado são centralizados nas discussões do pátio da escola, além da paquera, do nascer dos vícios, da formação de gangues e de amizades duradouras. São muitos os ritmos concentrados no seio escolar.
É talvez desleal esse confronto: escola X sociedade. Se não for atrativa, convincente e bastante atualizada, a escola é derrotada prontamente. Poucos são os alunos que encontram atrativos no processo de aprendizagem. Que se interessam parcial ou totalmente pelas aulas, mesmo aqueles que vivem em ambientes ou localidades desprovidos de tecnologias, jogos virtuais ou internet.
Dificuldade de aprendizagem é um termo em que se refere a um grupo de desordens manifestadas por dificuldades na aquisição e utilização da audição, fala, leitura, escrita ou do raciocínio matemático. Tais dificuldades, quando geradas por problemas neurológicos e, estruturam uma psicose ou neurose grave, são consideradas problemas mentais, sendo, também causadoras do fracasso escolar. Sua constatação deve ser feita através de exames clínicos com especialistas (AQUINO, 1997, 136).
Seja qual for o motivo que leve um aluno ao fracasso escolar, chega-se a conclusão que o maior prejudicado é o próprio aluno, que ao longo de muitos anos vem sendo responsabilizado pelos maus resultados. Punidos, criticados e penalizados, são rotulados de desinteressados e irresponsáveis.
Segundo PERRENOUD ( 2000, p. 189) as dificuldades de aprendizagem independem da vontade do aluno ou do professor. A criança com D.A. não é deficiente, mas apresenta certo déficit específico de aprendizagem. Ela não é uma criança normal em alguns aspectos, porém, atípica em outros. Ela simplesmente aprende de uma forma diferente das demais.
Tais dificuldades não são planejadas ou propositais. Vários são os motivos que determinam o fracasso escolar e, consequentemente, as dificuldades de aprendizagem, como por exemplo: a metodologia utilizada, o currículo escolar, a relação professor-aluno, entre outros. Satisfazer uma criança ou um adolescente, a ponto de levá-lo ao aprendizado é uma tarefa um tanto difícil, pois, existem outros interesses muito mais atrativos que o dia-a-dia da sala de aula.
Quando o aluno é autor determinante das dificuldades que apresenta e, essas são originadas por baixa inteligência ou em alguns casos, por problemas orgânicos, a própria escola, quando da presença de profissionais capacitados pedagógica e psicologicamente têm plena condição de solucionar tais dificuldades sem a necessidade de isolar o aluno ou submetê-lo a tratamentos fora do espaço escolar. “A família tem papel fundamental nos tratamentos psicológicos, quando se visa realinhar o aluno aos estudos. Principalmente se as dificuldades de aprendizagem estiverem relacionadas ao ambiente familiar” (PAIN, 1995, 112).
Por diversos motivos a escola poderá tornar o aluno capaz ou incapaz. Principalmente no que tange a relação professor/aluno. “O professor, ao ocupar o papel de referência, de formador de opinião tem importância fundamental no desenvolvimento do aluno, bem como, de conduzi-lo ao fracasso” (PAIN, 1995, 114). O aluno espera do professor muito mais do que ele, professor, costuma estar preparado. O professor torna-se a sua maior referência. Porém, se essa referência for negativa, dotada de despreparo, pode ser transferida para o aluno. Quando o aluno é tratado como incapaz, provavelmente não terá sucesso, não desenvolverá a sua aprendizagem.
Muitas crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem são identificados com base em critérios pedagógicos arbitrários, através de pareceres e avaliações médicas tradicionais, que não levam para uma reeducação ou conversão. Outros alunos nem mesmo chegam a serem identificados, eles são aprovados de uma série para outra sem que se trabalhem suas dificuldades ou, permanecem por certo tempo na mesma série.
Muitos são os motivos que podem levar ao desinteresse, fazer com que o aluno veja a escola como secundária, um lugar comum: gravidez na adolescência, morar longe da escola, ter que olhar o irmão mais novo, falta de material escolar, preconceito racial, obesidade, estética facial deprimente ou deficiências física, auditiva e visual, além da gagueira. Motivos como esses tornam a escola nada relevante. Faz com que dificuldades apareçam e promovam o fracasso escolar.
Segundo PERRENOUD (2000, p. 189) o fracasso escolar está relacionado diretamente com as dificuldades de aprendizagem, principalmente no que tange aos motivos que os associam, a que se complementam, caracterizando a desestabilização do aluno e, por conseguinte, a sua desistência e posterior abandono das aulas. “Ao fracassar, o aluno é, imediatamente, caracterizado como portador de dificuldades de aprendizagem” (PERRENOUD, 2000, p. 176).
É interessante que a família tenha paciência e, juntamente com a escola encontre meios de intervir, tentando realinhar tal situação, orientando o filho quanto à valoração da escola para o seu crescimento pessoal e profissional. Ainda, buscar ajuda de um especialista. Porém é sabido que é muito mais importante que professores, gestores e demais componentes do contexto escolar antecedam a possíveis fatores, tornando a escola mais acolhedora, evitando processos de seleção e de exclusão. Enfim, construir mecanismos de diálogo com os seus alunos, evitando, assim, que os mesmos abandonem a escola.
Conclusão
O estudo aponta para uma relação entre o fracasso escolar com as dificuldades de aprendizagem, evidenciando que o insucesso na relação aluno/escola advém de várias origens, principalmente da falta de adaptação com a escola e da relação professor-aluno. Porém, tantos outros motivos podem ocasionar o fracasso do aluno e, que um aluno reprovado ou que abandonou a sala de aula pode tê-lo feito devido alguma dificuldade de aprendizagem, conforme um rótulo estabelecido pela escola ou família sem se ter certeza.
Portanto, cabe aos educadores, esquecer os “rótulos” distribuídos aos seus alunos e tentarem trabalhar com essas crianças, exercitando o diálogo e a compreensão, buscando incentivá-los, tornar o espaço escolar um ambiente prazeroso e mais próximo da criança e do adolescente, ou seja, mais atrativo. Caso se constate da existência real de uma criança com dificuldade de aprendizagem, não se entendendo a sua origem após conversar com a família e conhecer o entorno de vivência diária dele, é interessante encaminhá-lo para profissionais competentes, ou seja, especialistas da área da psicologia, que farão um acompanhamento analítico, podendo conduzi-lo a normalidade dos seus atos, pois quando o problema não tem uma origem neurológica qualquer criança ou adolescente poderá voltar a agir com normalidade.
Referências
AQUINO, Júlio (org). Erro e fracasso na escola. São Paulo: Sumus, 1997.
PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre, 1995.
PATTO, M.H.S. A produção do fracasso escolar: história de submissão e rebeldia. São Paulo: I.A. Queiroz , 1990.
PERRENOUD, Phillippe. Pedagogia diferenciada. Porto Alegre: Artmed, 2000.