RACISMO NO BRASIL: DO QUILOMBO AO MUNDO CONTEMPORÂNEO Profº Ademir Rodrigues Pereira

20-01-2014 16:27

RESUMO

O trabalho visa salientar a questão do racismo no Brasil, da vida nos quilombos até o mundo contemporâneo. Para a realização da pesquisa será necessário analisar o negro no período da escravidão, fuga e criação dos quilombos, de acordo com CARNEIRO (1966), BONASSI (19940, MOURA (1981), VALENTE (1995) e DIEZ (2006). Objetiva, ainda analisar, como se encontram as comunidades quilombolas do extremo sul da Bahia, bem como, dos remanescentes que habitam tais comunidades. Como conclusão o estudo demonstrou um avanço na trajetória escravo/negro contemporâneo, salientando o fato de o negro poder competir em todos os âmbitos sociais, além de estar ocupando cargos e funções no cenário nacional e mundial.

 

Introdução

Com base nas proposições de CARNEIRO (1966), VALENTE (1995), BONASSI (1994), DIEZ (1998) E MOURA (1981) pode-se definir o período de escravidão no Brasil como uma época vergonhosa, de tratamentos irracionais e de total desvalorização do ser humano afrodescendente. Que o preconceito racial nasceu de uma lógica sem precedentes, sem comprovação científica ou religiosa, apenas criou-se divergir pessoas pela cor da pele, o que tem levado milhares de negros a sofrer castigos e torturas, inclusive a morte ao longo da história, simplesmente por ser negro, como se isso explicasse o uso de tais métodos e decisões, concordadas por sociedades inteiras.

Vale salientar que nos dias atuais, leis foram criadas e sancionadas visando obrigar as pessoas a conviver com o negro, respeitando e dividindo espaços com eles, sem quaisquer questionamentos, antes levados em consideração.

O estudo também focaliza a criação dos quilombos, critérios de estabelecimento, convivência entre os fugitivos, seus líderes até os últimos remanescentes no extremo sul da Bahia.

O trabalho objetiva analisar a questão do racismo no Brasil, dos quilombos até o mundo contemporâneo, bem como, focalizar o período da escravidão, as fugas, fundação das comunidades quilombolas e os direitos alcançados pelo negro na sua trajetória da escravidão até o século XXI.

 

A história do negro no Brasil, da escravidão crua e sangrenta até o mundo contemporâneo apresenta algumas divergências no campo da legalidade e da afronta social regimentada. São várias as leis que foram criadas para melhorar a vida do negro, torná-lo respeitado, estabelecer o seu direito de ir e vir como qualquer cidadão brasileiro, e que só existem no papel. Atitudes e comportamentos traduzem, ainda hoje, a forma de pensar, de agir e considerá-lo como um ser humano diferente, menos isso, menos aquilo. De não tentar entendê-lo, ouvi-lo ou escolhê-lo, devido à cor da sua pele. “O negro de hoje é visto através de um ontem pejorativo, reflexo da ignorância humana” (VALENTE, 1995, p. 112).

Do negro escravo ao negro “livre” constituiu-se uma história penosa, cheia de torturas e maus tratos. Uma espécie de ódio contra o negro, disseminado de forma ignorante, irracional.

Assassinatos e atos terroristas contra negros, praticados pela Ku Klux Klan no século XIX até os dias de hoje; relações levianas de que certos traços físicos levam a tendências criminosas, como nos relatos científicos do criminologista italiano Cesare Lombroso, até regimes de segregação entre brancos e negros – Apartheid – África do Sul pautaram as laudas da história (VALENTE, 1995, p. 112).

Por mais que se tentou provar ou comprovar algum ato ou reflexo que levasse a divergir o negro do branco ou do índio, terá sido mera tentativa de exclusão ou de oportunizar algum branco ou filho de branco em favor de algum benefício, privilégio ou prestígio. Muitos negros foram escravizados ou mortos por causa da cor da pele. Estabeleceu-se uma lógica sem precedentes científicos, onde as diferenças raciais serviam apenas para avaliar, julgar pessoas num primeiro momento, tornando-as culpadas.

No transcorrer da história do Brasil a escravidão de negros e índios delineou-se sem forma. A ordem era manter escravos trabalhando contra vontade. Os representantes da coroa portuguesa não contrariavam interesses dos fazendeiros. A sociedade assistia a tudo de braços cruzados. A igreja limitava-se a catequizar negros e índios, tentando imprimir uma religião à crença deles. “Houve uma época que a diferença entre negro e branco chegava a convencer, tal qual era a condição estabelecida e aceita por todos” (CARNEIRO, 1966, p. 190).

Muitos escravos já se rebelavam, não se calando diante de maus-tratos, da humilhação e dos castigos que sofriam. Não aceitavam a condição de escravo. Alguns já ousavam fugir. Eram capturados, torturados ou mortos. Fugiam novamente, novamente eram capturados. Faltava uma “fórmula” para que as fugas dessem certo.

Segundo MOURA, (1981, p. 87), no início do século XVII os primeiros sinais de organização nasciam na zona rural, quando alguns fugitivos começaram a se juntar em pequenas comunidades, em números diversos, quando se organizavam em quilombos, onde viviam livres. “Quilombo: primeiramente povoação de negros foragidos. Com o passar dos tempos passou a abrigar também índios e brancos pobres, que viviam em sistema de comunidade” (DIEZ, 1998, p. 67).

A escravidão era uma espécie de “navalha na carne”. Sofrimento, orgulho ferido, separação familiar forçada, alimentação igual à de animais e ausência de direitos eram condições fundamentais para gerar a busca da liberdade. Pensar em criar filhos livres e gerir a própria vida era sonho quase que diário. A ideia de liberdade fundamentava-se na própria vontade de viver ou não. No risco de se libertar dando a própria vida em prol da vida livre dos colegas escravos. Uma reação enérgica nasceu da ação cruel e animalesca dos fazendeiros, a fuga. Sabiam dos riscos, porém, a morte parecia melhor negócio.

A ideia de uma comunidade livre acelerava as estratégias, confundia a melhor qualidade, mascarava a dor. Fugir era sinônimo de ser e estar livre. Poder ir e vir. Ser obediente a quem de direito ou a si próprio. Enfim, estar livre, mesmo sujeito a recaptura, a duros castigos, não diminuía tal vontade. Afinal, a floresta era acolhedora, servia de refúgio a milhares de negros que se escapavam dos canaviais, dos engenhos de açúcar, dos currais de gado, das senzalas, das vilas do litoral, em busca de liberdade e de segurança, subtraindo-se aos rigores da escravidão.

O movimento de fuga era geral e, por toda parte, do sertão de Pernambuco, da costa de Alagoas, do interior de Sergipe e da Bahia, novas colunas de negros fugidos chegavam para engrossar a população do quilombo. Os que vinham da lavoura plantavam canaviais, roças de milho, roças de mandioca. Os que vinham das cidades, e conheciam ofícios mecânicos, se instalavam com tendas de ferreiro. Outros se empenhavam na caça, na pesca, na criação de galinhas, na fabricação de cestos, chapéus, abanos, potes e vasilhas (...) (CARNEIRO, 1966, p. 1-2).

Tantos quilombos se constituíram no país. Famílias se refizeram. Amores fraternos, maternos e carnais se evidenciaram novamente. Negros senhores, negros comunidades, negros líderes eram uma terminologia aceita por eles nos quilombos. Era uma realidade, mesmo que ameaçada pelos capitães-do-mato que rondavam dia e noite, procurando fugitivos.

Um dos quilombos mais conhecidos na história do Brasil é o de Palmares. Localizava-se na atual região do estado de Alagoas. Era considerado o maior e mais resistente, sobrevivendo por, aproximadamente, 100 anos, tendo sido liderado por Zumbi, homem de muita valentia, que combateu corajosamente a dominação portuguesa.

O quilombo dos palmares tornou-se referência entre os demais, pela forma democrática como as coisas aconteciam. Regras e normas eram discutidas e aceitas por uma maioria, antes da prática. A produção era totalmente revertida em benefício do próprio quilombo. A segurança era fator preponderante e, acontecia de forma constante, pois o perigo de uma invasão rondava a todos constantemente.

Os quilombos existiram até a promulgação da Lei Áurea, que aboliu a escravidão. Abolição sem libertação. Homens, mulheres, idosos e crianças abandonados à própria sorte. Obrigados a morar em favelas, alagados e pelas ruas. A abolição promoveu marginais, prostitutas e mendigos. O desemprego era geral, o negro foi substituído pelo branco europeu. Crescia a violência e a forte repressão policial, que demorou a ver o negro como um cidadão livre. “Ainda era negro, o homem liberto. Uma liberdade negra permeada da história escrava, da cor da pele” (VALENTE, 1995, p. 179.

Hoje, o reflexo da escravatura brilha reluzente na sociedade brasileira. O preconceito arde nos olhares e palavras de milhares de seres humanos brancos ou negros.

A Constituição Brasileira, promulgada em 05 de Outubro de 1988 proíbe veementemente a discriminação racial, conforme os seus artigos 3º e 4º, tornando-a inafiançável e imprescritível. Criaram-se mecanismos que proíbem a fala e os manifestos preconceituosos, porém, o negro sofre um tipo de discriminação velada, longe de ocupar os mesmos espaços e direitos que o homem branco. Como uma alteração na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a Lei 10.639, de 09 de Fevereiro de 2003 torna obrigatória a inclusão do currículo oficial do estudo da história e cultura africana e afro-brasileira. São garantias normativas que visam à abordagem do estudo da história da cultura negro-brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição dos africanos e afrodescendentes nas áreas social, econômica e política, referentes à história do Brasil.

Atualmente os quilombos se transformaram em comunidades (vilas, povoados ou distritos), onde muitos costumes são preservados. “Livres de ameaças e invasões os remanescentes dos quilombos buscam a paz e a igualdade social, valorizando tradições e costumes” (BONASSI, 1994, p. 111).

O negro, atualmente, vem buscando ocupar espaços, pleiteando cargos, atuando em diversas áreas. “No extremo sul da Bahia, comunidades quilombolas como: Helvécia, Juerana e Cândido Mariano têm nas áreas da educação e saúde uma pequena quantidade de remanescentes, filhos e netos de negros com emprego efetivo” (DIEZ, 2006, p. 29).

Segundo DIEZ (2006, p. 35) o mercado de trabalho em todo o país apresenta um crescimento favorável ao jovem, incentivando o primeiro emprego, a igualdade. Porém, ainda é um campo entreaberto para o negro. Apresenta exigências burocráticas nem sempre aceitas claramente. Valoriza-se a cor branca em detrimento da pele negra. Nas comunidades citadas pelo autor, já se observa pequena quantidade de professores negros atuando com formação universitária, no entanto, em relação à população daquela região, o percentual é irrisório. Há sempre uma maioria de brancos ocupando vagas no mercado de trabalho. Mesmo nas áreas rurais há sempre um número maior de brancos compondo os quadros funcionais, principalmente nos cargos de gestão educacional, secretaria escolar e coordenação pedagógica.

O racismo no Brasil, do quilombo até os dias atuais diminuiu consideravelmente. Estabeleceu-se “direitos iguais”, sistema de cotas beneficiando o ingresso do negro na universidade, enfim, buscou-se a igualdade. Há negros em diversas situações de destaque no Brasil e no mundo, como: o presidente eleito dos Estados Unidos da América, Barack Obama; O campeão mundial de Fórmula de 1, Lews Hamilton; o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela; o ex-ministro dos esportes do Brasil, Orlando Silva Júnior; o bispo africano Desmond Tutu, além de uma grande quantidade inserida no mundo dos esportes e na área artística.

Afinal, o negro vem conquistando espaços, desafiando preconceitos, vencendo competições. A trajetória da escravidão ao mundo contemporâneo, por se tratar de seres humanos, a “imagem” deveria ser reflexo do “domínio”, porém, a imagem atual, apesar de todas as dificuldades evidenciadas pelo negro, delineia-se favorável a ele, no que tange a liberdade, mesmo sabendo-se que o racismo ainda se faz presente no contexto social, mascarando a imagem humana.

A população brasileira é miscigenada. É fotografia da mistura perfeita entre branco, negro e índio. Não há como entender tal população sem o tingimento da melanina, sem a presença ativa do negro, da negra, salientando a raça brasileira.

 

Conclusão

 

O estudo demonstrou que o negro vem ocupando espaços na luta por seus direitos reconhecidos e respeitados. Que as portas, lentamente, vão se abrindo, deixando evidente a igualdade de direitos na luta por trabalho, em concursos públicos e ingresso na universidade. Que nas comunidades quilombolas do extremo sul da Bahia os negros e seus descendentes já ocupam cargos nas áreas de educação, da saúde e de outros departamentos públicos. Enfim, da escravidão até o mundo contemporâneo houve conquistas.

Vale salientar que, apesar de várias conquistas, a maioria, na teoria, na prática ainda existe um preconceito velado em todos os setores da sociedade. Ainda há uma luta eterna e incessante para se chegar a uma igualdade de direitos, conforme reza na constituição brasileira e em leis criadas em prol do reconhecimento do negro como um ser humano rico em tradições e cultura e, responsável pelas tradições e cultura do Brasil, bem como, pela miscigenação que originou o povo brasileiro.

 

Referências

BONASSI, F. e NAVAS, V. O sonho de Palmares. São Paulo, Cepec, 1994.

CARNEIRO, E. O quilombo dos Palmares. 3 ed. São Paulo, Civilização Brasileira, 1966.

DIEZ, A. G. Segredos da Bahia, 7: História. São Paulo: FTD, 2006.

MOURA, C. Rebeliões da senzala. São Paulo, Ciências Humanas, 1981.

VALENTE, A. L. E. F. Ser negro no Brasil hoje. 14 ed. São Paulo, Moderna, 1995